Estudo da Deloitte aponta avanço do mercado de NPL e reforça a importância da gestão ativa de portfólios diante de maior inadimplência e desafios econômicos
O mercado de cessão de créditos não performados, conhecidos como NPL, deve ganhar ainda mais tração em 2026. De acordo com levantamento da Deloitte, o volume dessas operações pode crescer 73% no próximo ano, alcançando R$ 52,3 bilhões. O movimento consolida um ciclo de expansão iniciado após a pandemia e traz implicações diretas para empresários e profissionais da contabilidade.
A leitura do estudo é clara. O ambiente de crédito segue resiliente, mas pressionado por fatores como aumento do endividamento, inadimplência e juros elevados. Nesse cenário, a cessão de créditos se consolida como ferramenta estratégica para gestão de risco e recomposição de caixa.
“O Sistema Financeiro Nacional ultrapassou a marca de R$ 7 trilhões em saldo total da carteira, evidenciando a resiliência do mercado de crédito mesmo em um cenário mais desafiador. Nesse contexto, a gestão ativa de portfólios se torna fundamental para mitigar riscos e otimizar a alocação de recursos”, afirma Ricardo Marin, sócio de SR&T da Deloitte.
Expansão do mercado exige gestão mais sofisticada
O crescimento projetado não ocorre de forma isolada. Ele vem acompanhado de maior maturidade nas operações e de um aumento simultâneo da oferta de carteiras por parte das empresas e do apetite de investidores interessados nesses ativos.
Para o empresário, isso significa uma mudança de postura. A venda de créditos inadimplentes deixa de ser uma medida pontual e passa a integrar a estratégia financeira. Já para o profissional contábil, cresce a responsabilidade na estruturação dessas operações, especialmente na avaliação de impacto financeiro, tributário e de provisões.
A própria dinâmica do mercado evidencia esse amadurecimento. Em 2025, o volume efetivamente cedido ficou muito próximo do estimado, indicando maior previsibilidade e planejamento por parte das empresas.
Desafios operacionais e financeiros ganham protagonismo
Apesar do avanço, o estudo revela entraves relevantes. Mais da metade das empresas não conseguiu concluir operações de cessão por divergência entre preço esperado e valor ofertado.
“Uma melhor calendarização e maior estruturação dos processos de venda podem contribuir para mitigar o desalinhamento de preço. Embora ainda pouco adotado, o earn out também poderia ser uma alternativa”, explica Marin.
Esse cenário reforça a necessidade de maior organização das empresas. Para o empresário, passa por estruturação de dados e estratégia de negociação. Para o contador, envolve análise detalhada das carteiras, provisões e impactos no resultado.
Além disso, a recuperação de crédito segue pressionada por fatores estruturais. O alto nível de endividamento da população, a dificuldade de adequação da capacidade de pagamento dos devedores e o patamar dos juros aparecem como principais obstáculos.
Regulação e tributação entram no radar estratégico
As mudanças regulatórias e tributárias ainda não alteraram de forma significativa o volume de cessões, mas já estão sendo incorporadas ao planejamento das empresas.
A Resolução 4966 influencia decisões estratégicas, enquanto a Lei 14.467 já aparece no radar da maioria das empresas no que diz respeito à dedução de perdas.
“Para 2026, mais de seis em cada dez cedentes não preveem alterações relevantes na frequência ou volume de cessões em decorrência da Resolução. Parte das empresas, no entanto, já avalia ajustes por conta da incompatibilidade de preço em relação às provisões”, afirma Marin.
Para o ambiente contábil, esse cenário exige atualização constante e atuação consultiva. A correta interpretação dessas normas pode impactar diretamente a viabilidade das operações e a eficiência fiscal das empresas.
Aumento da competição e novos setores no mercado
Do lado dos investidores, a expectativa também é de expansão. A maioria dos cessionários projeta aumento nos investimentos em NPL nos próximos anos, o que intensifica a concorrência por ativos.
Além dos setores tradicionalmente presentes, como bancos, fintechs e varejo, áreas como utilities e serviços devem ganhar espaço.
“Essa expansão revela uma maior oferta de ativos para outros setores além dos mais consolidados, o que intensifica a competição por investimentos e reforça a necessidade de planejamento estratégico nos processos de cessão”, conclui Marin.
Contabilidade assume papel estratégico nas decisões
O avanço do mercado de cessão de créditos não performados reforça uma tendência já em curso. A contabilidade deixa de atuar apenas no registro e passa a ocupar posição central na tomada de decisão.
Diante de um ambiente mais complexo, com maior inadimplência, pressão por resultados e mudanças regulatórias, o contador se torna peça-chave na análise de riscos, na definição de estratégias e na sustentação financeira dos negócios.
Para empresas, o recado é direto. Não basta reagir ao aumento da inadimplência. É preciso estruturar processos, planejar operações e integrar a cessão de créditos à estratégia. Para os profissionais contábeis, o momento é de ampliar o olhar e atuar de forma cada vez mais consultiva em um mercado que segue em expansão.
