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Paulo Gomes, diretor geral do IIA (Instituto dos Auditores Internos do Brasil)

Há mais de duas décadas, robôs já circulavam silenciosamente por datacenters para coletar dados em fitas magnéticas e alimentar os sistemas de auditoria. O que parecia ficção científica na época, hoje dá lugar a tecnologias ainda mais sofisticadas que transformaram por completo a forma de fazer auditoria interna. O avanço da computação em nuvem, da inteligência artificial e dos sensores remotos abriu caminho para uma nova era: é possível auditar uma obra no meio da floresta sem sair do escritório, cruzar automaticamente os dados da execução física com os pagamentos realizados e emitir relatórios em tempo real.

A tecnologia sempre esteve no DNA da auditoria eficaz. Antigamente, um auditor com conhecimento em programação conseguia submeter rotinas para extrair dados de sistemas mainframe, muitas vezes armazenados em cartuchos organizados em fitotecas – locais em que robôs buscavam fisicamente as fitas para leitura. Essas análises permitiam identificar desvios de padrões e detectar fraudes, como gastos fora da alçada aprovada ou pagamentos reincidentes suspeitos.

Com o tempo, o trabalho manual foi substituído por processos automatizados; hoje, a auditoria de grandes projetos utiliza drones para inspecionar obras em regiões remotas e ferramentas de inteligência artificial que comparam automaticamente os marcos físicos da execução com os desembolsos contratuais. Um canteiro de obras pode ser filmado e analisado remotamente, gerando evidências visuais que, cruzadas com os dados contábeis, apontam inconformidades e possíveis fraudes.

A mudança é também operacional. O tempo antes dedicado a longas viagens de campo e elaboração manual de relatórios foi substituído por análises automatizadas, assistentes de IA e dashboards que facilitam a tomada de decisão. Um relatório que antes levava semanas, hoje pode ser gerado em poucas horas com maior precisão, profundidade e impacto.

Casos de desvios, como o aumento repentino de consumo de materiais (seja em supermercados ou em obras) podem ser identificados a partir do comportamento estatístico dos dados. O princípio é o mesmo: observar padrões, investigar anomalias e garantir conformidade com os contratos e as boas práticas de gestão.

Para os profissionais da área, a atualização tecnológica deixou de ser diferencial para se tornar pré-requisito. Auditor que não domina ferramentas de IA, análise de dados ou automação está fora do mercado. Ou seja, não é mais sobre apenas saber olhar números, mas sim sobre saber perguntar, cruzar dados, usar ferramentas inteligentes e, principalmente, trabalhar em parceria com especialistas de outras áreas, como engenheiros, advogados e analistas de dados.

O impacto dessa evolução reduz custos, aumenta a confiabilidade dos processos, fortalece o compliance e protege as organizações de perdas que, segundo estudos internacionais, ainda podem representar até 10% do faturamento das empresas.

Hoje, a auditoria é tão tecnológica quanto humana e exige sensibilidade para interpretar dados, firmeza para apontar falhas e coragem para inovar. E, acima de tudo, continua sendo uma das principais linhas de defesa das organizações diante de riscos, fraudes e ineficiências que comprometem resultados e reputações.

A auditoria se reinventou com a IA. O olhar crítico do auditor permanece insubstituível, mas agora é amplificado por dados, algoritmos e sensores capazes de revelar em minutos o que antes levava semanas.

O futuro da auditoria é integrado, colaborativo e decisivo para a sustentabilidade dos negócios. Agora, resta aos profissionais utilizá-la a favor da integridade organizacional.

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