Pesquisa da Thomson Reuters revela que profissionais de Contabilidade, auditoria, compliance e direito já usam inteligência artificial, mas organizações ainda falham em transformar tecnologia em vantagem competitiva
A inteligência artificial deixou de ser uma aposta para se tornar um fator determinante de competitividade. No entanto, enquanto a tecnologia avança rapidamente, grande parte das organizações ainda enfrenta dificuldades para incorporá-la de forma efetiva aos seus processos. O resultado é um cenário preocupante: perda potencial de clientes, aumento da rotatividade de talentos e crescimento de riscos operacionais invisíveis.
O alerta está no relatório Future of Professionals 2026, divulgado pela Thomson Reuters, que ouviu 1.800 profissionais das áreas jurídica, tributária, contábil, de auditoria, risco e compliance em diversos países. O estudo mostra que, embora 74% dos profissionais utilizem ferramentas de inteligência artificial semanalmente, a maioria das empresas ainda não consegue transformar esse uso em ganhos concretos de produtividade, qualidade e geração de valor.
Para escritórios de Contabilidade, auditoria e consultoria financeira, a conclusão é direta: a discussão não é mais se a IA será adotada, mas quem conseguirá implementá-la de maneira eficiente antes dos concorrentes.
Contabilidade e finanças estão entre as áreas mais impactadas
A pesquisa revela que profissionais das áreas tributária, contábil e financeira estão entre os que mais podem se beneficiar da inteligência artificial, especialmente em atividades relacionadas à análise de dados, revisão documental, interpretação regulatória, gestão de riscos e elaboração de relatórios.
Ao mesmo tempo, essas áreas convivem com uma crescente pressão por produtividade, precisão e velocidade de entrega. Nesse contexto, a IA surge como uma ferramenta capaz de automatizar tarefas repetitivas, reduzir erros operacionais e liberar profissionais para atividades mais estratégicas.
Apesar desse potencial, 91% dos entrevistados afirmam que suas organizações ainda estão longe de aproveitar plenamente os benefícios da inteligência artificial.
O dado indica que o problema atual não está no acesso à tecnologia, mas na capacidade das empresas de transformá-la em resultados mensuráveis.

O risco invisível da “Shadow AI”
Uma das descobertas mais preocupantes do estudo é o crescimento da chamada “Shadow AI”, expressão utilizada para descrever o uso de ferramentas de inteligência artificial não autorizadas ou não homologadas pelas organizações.
Segundo o levantamento, um terço dos profissionais já utiliza soluções de IA sem aprovação formal da empresa. O percentual sobe para 41% entre profissionais que acreditam que suas organizações estão avançando lentamente na adoção da tecnologia.
O fenômeno preocupa especialmente setores como contabilidade, auditoria e compliance, onde a manipulação de informações financeiras, fiscais e estratégicas exige elevados padrões de segurança, rastreabilidade e governança.
O relatório aponta que:
- 96% dos profissionais consideram essencial a proteção de dados confidenciais;
- 94% exigem informações confiáveis e verificáveis;
- 90% defendem que os resultados produzidos pela IA sejam transparentes e passíveis de auditoria.
Mesmo assim, 41% dos entrevistados afirmam não ter acesso a ferramentas corporativas que atendam a esses requisitos. Na prática, isso significa que muitos profissionais estão recorrendo a plataformas externas para ganhar produtividade, criando riscos que as organizações nem sempre conseguem monitorar.
A nova disputa por talentos passa pela inteligência artificial
A inteligência artificial também está se tornando um fator relevante para atração e retenção de profissionais.
O estudo mostra que 24% dos entrevistados que percebem uma distância entre o potencial da IA e a realidade de suas empresas consideram mudar de emprego nos próximos dois anos. Entre eles, 13% afirmam que poderiam tomar essa decisão já nos próximos 12 meses.
A percepção dos líderes, entretanto, parece estar desalinhada com essa realidade. Quase metade dos executivos acredita que eventuais impactos sobre retenção de talentos só serão sentidos daqui a três anos ou mais. Os dados sugerem que essa pressão já começou.
Entre os profissionais entrevistados:
- 62% afirmam que o acesso a ferramentas profissionais de IA influenciaria sua decisão de aceitar uma nova oportunidade;
- entre usuários frequentes dessas soluções, quase um terço recusaria uma vaga que não oferecesse esse tipo de recurso.
Para escritórios contábeis e empresas de consultoria, o desafio vai além do recrutamento. A tecnologia passa a integrar o pacote de valor oferecido ao profissional, assim como remuneração, plano de carreira e qualidade de vida.
Clientes estão exigindo mais valor e melhores entregas
Se os profissionais estão atentos à evolução tecnológica, os clientes parecem ainda mais exigentes. De acordo com o levantamento, 78% dos clientes corporativos consideram essencial ou muito importante que seus fornecedores utilizem inteligência artificial para melhorar a qualidade dos serviços prestados.
No entanto, apenas 6% acreditam que a maioria das empresas fornecedoras já entrega esse valor. Essa diferença entre expectativa e realidade pode gerar impactos financeiros significativos. O estudo aponta que 32% dos clientes pretendem reavaliar seus fornecedores nos próximos 12 meses. Entre eles, um terço afirma que mais de US$ 1 milhão em contratos anuais poderá entrar nessa análise.
Nos mercados jurídico e contábil dos Estados Unidos, a Thomson Reuters estima que aproximadamente US$ 143 bilhões em receitas estejam potencialmente sujeitos a revisão.
O movimento sinaliza uma mudança importante no mercado profissional: a inteligência artificial começa a ser percebida não apenas como uma ferramenta operacional, mas como um diferencial competitivo observado diretamente pelos clientes.
O desafio não é tecnológico, mas de execução
Embora a maioria das organizações já reconheça a importância da inteligência artificial, a implementação ainda avança em ritmo lento.
O relatório mostra que:
- 35% dos profissionais afirmam que as ambições de IA não se refletem nas atividades do dia a dia;
- aproximadamente um em cada cinco entrevistados diz que sua organização sequer possui uma estratégia clara para o tema.
No parecer de Steve Hasker, presidente e CEO da Thomson Reuters, está surgindo uma divisão entre organizações que conseguem operacionalizar a IA e aquelas que permanecem apenas na fase de planejamento.
Para ele, a tecnologia já está disponível e madura. O principal desafio agora é transformar estratégia em execução.
IA confiável será diferencial para profissões reguladas
O estudo também reforça que nem toda inteligência artificial atende às necessidades de profissões altamente reguladas.
Em áreas como contabilidade, auditoria, compliance e direito, decisões equivocadas podem gerar impactos financeiros, fiscais e regulatórios significativos. Por isso, cresce a demanda por modelos baseados em informações verificáveis, governança robusta e mecanismos de auditoria.
A Thomson Reuters chama essa abordagem de “IA de nível fiduciário”, conceito que combina conteúdo especializado, proteção de dados, transparência dos resultados e suporte humano especializado.
A tendência reflete uma mudança importante no mercado: mais do que rapidez, empresas e profissionais passam a exigir confiança, rastreabilidade e responsabilidade nas respostas produzidas pela inteligência artificial.
A janela de oportunidade está aberta
Os resultados do relatório indicam que a transformação digital das profissões especializadas entrou em uma nova fase.
A adoção da inteligência artificial deixou de ser um projeto experimental para se tornar uma questão estratégica de crescimento, retenção de talentos e relacionamento com clientes.
Para empresas, escritórios de Contabilidade, auditoria, consultorias tributárias e áreas de compliance, a mensagem é clara: o custo de esperar pode ser maior do que o investimento necessário para avançar. A tecnologia está disponível. O diferencial competitivo passa a ser a capacidade de implementá-la de forma segura, estruturada e alinhada às demandas de um mercado cada vez mais exigente.
Da Redação do Portal Dedução
