Crescer em receita não garante solidez e pode esconder fragilidades estruturais que comprometem o futuro do negócio
Em meio à pressão por crescimento e resultados rápidos, empresas brasileiras continuam repetindo um erro que compromete sua sustentabilidade no longo prazo. O foco no lucro imediato, frequentemente tratado como indicador principal de sucesso, tem mascarado fragilidades que impedem a geração de valor consistente. Para o executivo Matheus Lorenzi, cofundador da Rossetto & Lorenzi, essa confusão ajuda a explicar por que tantas companhias avançam em receita, mas permanecem vulneráveis.
Ao longo de sua trajetória em grandes empresas e organizações investidas por fundos, Lorenzi identificou um padrão recorrente. Negócios que apresentam crescimento no faturamento e até lucro no curto prazo continuam enfrentando dificuldades financeiras, baixa previsibilidade de caixa e limitações para sustentar sua expansão.
A distinção entre lucro e valor, segundo ele, é central para entender o problema. “Uma empresa lucrativa gera resultado no DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), margem e lucro hoje. Uma empresa valiosa além de lucrar, consegue sustentar esse resultado, gerar caixa com previsibilidade, ter governança, reduzir risco e ser escalável”, afirma Lorenzi.
Crescer pode enfraquecer
A diferença se torna mais evidente em momentos de expansão acelerada. Muitas empresas aumentam vendas e ampliam operações, mas não conseguem transformar esse movimento em geração de caixa. O crescimento passa a exigir mais capital de giro, eleva custos e pressiona margens, criando um cenário em que o avanço da receita não se traduz em solidez financeira.“Receita sobe, mas o ciclo de caixa estoura, e a empresa fica mais frágil”, diz Lorenzi.
Para o executivo, o problema raramente está na estratégia. O ponto crítico costuma ser a execução. Ao longo de sua experiência, ele observou empresas que acumulam diagnósticos e recomendações, mas não conseguem transformar essas diretrizes em resultados concretos. A falta de disciplina na implementação, somada à ausência de governança, contribui para um ambiente em que há muitas iniciativas e pouca entrega.
Esse descompasso também se manifesta em sinais recorrentes dentro das organizações. “Crescimento irregular é quando a empresa ganha receita e perde controle”, afirma Lorenzi, ao descrever situações em que o caixa desaparece, a margem se deteriora e a operação perde eficiência sem que haja clareza sobre as causas.
Valor exige disciplina
Como resposta a esse cenário, Lorenzi defende uma abordagem que integra resultado e construção de valor. A chamada tese VER propõe que decisões empresariais considerem simultaneamente o impacto no curto prazo e a capacidade de fortalecer o negócio ao longo do tempo. Isso envolve olhar para margem e geração de caixa, mas também para governança, risco e escalabilidade.
Nesse contexto, o controle do caixa assume papel decisivo. Empresas que não dominam seu ciclo financeiro tendem a enfrentar dificuldades recorrentes, independentemente do nível de receita. “O maior vilão quase sempre é o ciclo de caixa, ele define se a empresa respira ou trava”, afirma.
Em momentos de crise, a pressão por resultado imediato se intensifica, mas o executivo alerta para o risco de decisões que comprometem o futuro. “Na crise, primeiro você garante fôlego, depois você reconstrói valor, sem cortar o que sustenta o futuro”, diz.
Para Lorenzi, o cenário econômico atual exige mais do que crescimento. Requer disciplina financeira, clareza na alocação de capital e capacidade de execução. Sem esses elementos, o avanço da receita pode se transformar em um fator de risco, e não em um sinal de fortalecimento.
“No fim, a diferença entre lucro e valor deixa de ser apenas conceitual. Trata-se de uma escolha que define se a empresa cresce com consistência ou apenas acumula resultados pontuais sem sustentação.”, completa.
