Para Fernando Marx, apesar da recente correção do Ibovespa, o ambiente de risco continua deteriorado e exige moderação do investidor, com oportunidades concentradas em setores mais descontados
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter novamente a taxa Selic em 15% ao ano reforçou o cenário de incertezas no mercado de renda variável brasileiro. Embora o movimento já fosse amplamente esperado, investidores seguem atentos à trajetória futura dos juros e aos impactos sobre a precificação das ações. A avaliação é de Fernando Marx, contribuidor do TC, que aponta que o ambiente de risco segue pressionado.
Segundo Marx, o principal ponto de atenção está na curva de juros futura, que concentra grande parte das expectativas dos agentes econômicos. “O mais importante é entender o que está no preço dos ativos, sobretudo na curva de juros. Chegamos a ter uma Selic terminal de 12% na curva DI, entretanto, com o estresse recente, este número piorou nos últimos dias”, afirma. Ele lembra que, enquanto a curva não mostrar uma tendência mais firme de fechamento, o potencial de valorização das ações tende a ser limitado.
O especialista explica que, historicamente, ciclos consistentes de corte de juros contribuem para revisões positivas das estimativas de lucro e múltiplos das empresas listadas. No entanto, o mercado ainda não encontrou clareza sobre quando esse ciclo terá início e qual será sua intensidade. “O relativo entre ações e juros não está tão interessante. Para que a Bolsa tenha um upside significativo, precisaríamos ver a curva fechar mais, e por enquanto os futuros cortes já estão amplamente no preço”, destaca.
A recente correção do Ibovespa, que caiu de 164 mil para cerca de 158 mil pontos, reacendeu dúvidas entre investidores sobre a possibilidade de aumento de exposição à renda variável. Para Marx, apesar da queda, o momento pede prudência. “Depende, mas no atual momento julgo que a cautela é mais importante. Viemos de um ano muito forte para emergentes e surfamos a onda. A matriz de risco piorou recentemente por conta do ambiente político, e ter uma alocação mais moderada parece sensato”, avalia.
Ainda assim, setores descontados seguem chamando a atenção do mercado e podem representar oportunidades de médio e longo prazo. No universo das empresas domésticas, Marx aponta o setor educacional como o mais barato da Bolsa atualmente. “Dentro de exportadoras, vejo Papel e Celulose e Petróleo com valuations atrativos. Empresas do agronegócio também estão bem baratas, em low do ciclo”, observa.
Por outro lado, o cenário de juros elevados e incerteza fiscal reforça a necessidade de evitar companhias mais frágeis financeiramente. Marx recomenda atenção especial às empresas com níveis elevados de endividamento. “Empresas alavancadas devem ser evitadas. Pode parecer contraintuitivo dado que vamos cortar juros mais à frente, mas muito desse movimento já está no preço, e podemos ter um ciclo mais limitado do que gostaríamos”, explica.
O especialista também destaca que a piora recente do ambiente de risco, tanto doméstico quanto global, tende a impactar a composição das carteiras no curto prazo. Em momentos de maior volatilidade, investidores costumam migrar para ativos considerados mais defensivos ou dolarizados, reduzindo exposição a empresas dependentes da economia doméstica.
Com isso, as projeções para o Ibovespa até a próxima reunião do Copom, marcada para janeiro, permanecem moderadas. Marx vê pouco espaço para uma recuperação expressiva do índice no curto prazo. “Minha expectativa é de um movimento de lado a baixista, com uma rotação para empresas dolarizadas devido à piora do ambiente de risco”, afirma.
O analista reforça que movimentos de volatilidade costumam gerar pontos de entrada interessantes para investidores de perfil mais paciente e com foco no longo prazo. A seletividade, segundo ele, será essencial na construção das carteiras ao longo dos próximos meses.
Marx ainda avalia que as próximas sinalizações do Banco Central, especialmente quanto ao início efetivo do ciclo de cortes, terão papel decisivo no comportamento do mercado acionário no início de 2026. Enquanto isso, a recomendação é avançar com estratégia, cautela e diversificação.
Por fim, após o comunicado do copom, para Marx o corte de Janeiro não foi completamente descartado, embora seja menos provável. “O comunicado não deixou nenhuma possibilidade em aberto para corte em Janeiro, contudo, se olharmos a expectativa de inflação em 3,2%, tecnicamente, este espaço existe.”
