Excesso de soluções tecnológicas sem integração compromete eficiência operacional, eleva custos e limita o potencial real da Inteligência Artificial nas organizações, alerta especialista
A promessa era simples: uma nova plataforma para cada problema. O resultado, décadas depois, é uma colcha de retalhos digital que ameaça a competitividade das empresas. Organizações de todos os portes acumulam sistemas de SaaS, customer experience, analytics, automação, service desk e Inteligência Artificial que funcionam bem individualmente, mas falham quando precisam operar em conjunto. E é justamente aí que a transformação digital tropeça.

O alerta vem de Rodrigo Cabot, Gerente de P&D da Ecosistemas Global, empresa com atuação em países como Brasil, Argentina, Chile, Espanha, México e Estados Unidos. Para Cabot, o setor corporativo entrou em uma “era da fragmentação”. E e sair dela exige muito mais do que contratar mais tecnologia.
O diagnóstico: plataformas demais, integração de menos
Dados da consultoria Gartner reforçam a preocupação. Segundo o levantamento, 73% dos CIOs identificam as tecnologias legadas como um dos principais obstáculos ao avanço da transformação digital, sobretudo pelas dificuldades de integração com arquiteturas modernas.
“Boa parte das companhias chegou até aqui incorporando soluções para resolver necessidades pontuais, sem uma estratégia consistente de interoperabilidade”, explica Cabot. “Com isso, hoje dispõem de operações fragmentadas, dados inconsistentes, aumento de custos e dificuldade para construir experiências integradas em tempo real.”
O cenário é comum em setores intensivos em regulação e dados, como o financeiro, o de seguros e o de saúde, justamente os que mais demandam visão integrada para cumprir obrigações legais e entregar valor ao cliente.
IA não performa bem em ambientes fragmentados
O problema ganha uma camada adicional de urgência com o avanço da Inteligência Artificial. Os novos modelos de IA, por mais sofisticados que sejam, dependem de contexto, interação entre sistemas e acesso a múltiplas fontes de dados em tempo real. Em ambientes fragmentados, essa base simplesmente não existe; e o resultado é uma IA implantada, mas subutilizada.
“Quando essa base não existe, a IA até pode ser implantada, mas tende a entregar menos valor do que promete”, afirma Cabot.
Para o especialista, a solução passa por estruturas tecnológicas menos rígidas — arquiteturas em que diferentes partes do ambiente possam ser integradas, substituídas ou evoluídas com mais flexibilidade, sem dependência excessiva de um único fornecedor ou plataforma.
O mercado já responde: API Management em alta
Essa necessidade já movimenta um segmento específico do mercado de tecnologia. O setor global de API Management, um dos principais viabilizadores da interoperabilidade entre sistemas, cresce impulsionado exatamente pela demanda de conectar plataformas em nuvem, sistemas legados e aplicações empresariais em tempo real.
A interoperabilidade deixou de ser uma questão técnica para se tornar um ativo estratégico. E a regulação começa a acompanhar esse movimento: na Europa, o novo Data Act da União Europeia já busca reduzir práticas de dependência tecnológica e fortalecer critérios de portabilidade de dados entre plataformas digitais.
“É um sinal de que esse debate tende a ganhar força globalmente nos próximos anos”, avalia Cabot.
Plataformas fechadas x arquiteturas abertas: o dilema das empresas
Cabot reconhece que não existe uma resposta única para o problema. Plataformas fechadas oferecem simplicidade, integração nativa e velocidade de implementação, mas também aumentam a dependência tecnológica, dificultam migrações e podem limitar a flexibilidade futura da arquitetura.
Do outro lado, estratégias componíveis, modelos API-first e ecossistemas mais abertos oferecem maior liberdade de evolução, embora exijam maior coordenação, integração e governança ao longo do tempo.
A escolha, portanto, precisa ser estratégica, não apenas operacional.
Interoperabilidade como vantagem competitiva
Para o Gerente de P&D da Ecosistemas Global, a discussão vai muito além de incorporar mais tecnologia. “Ela passa por entender até que ponto essa tecnologia amplia ou restringe a liberdade de evolução da empresa”, argumenta.
Na visão de Cabot, a próxima fronteira competitiva não estará em quem adotar mais IA, mais automação ou mais plataformas — mas em quem conseguir integrá-las com flexibilidade suficiente para continuar evoluindo sem depender completamente de uma única estrutura.
“Na economia digital, a interoperabilidade já não é apenas infraestrutura, é estratégia”, conclui.
Rodrigo Cabot é Gerente de P&D da Ecosistemas Global. Engenheiro de Computação pela UNLAM, com pós-graduações em Administração de Organizações Financeiras (UBA) e em Gestão Estratégica de Inteligência Artificial (UCEMA), lidera iniciativas de inovação tecnológica em seis países. Possui mais de 25 anos de experiência em TI, com projetos de transformação digital em setores como bancos, seguros, energia e saúde.
Da Redação do Portal Dedução
