Mauricio Frizzarin
Uma transformação silenciosa está redesenhando uma das profissões mais tradicionais do ambiente empresarial. Durante décadas, grande parte da rotina dos contadores esteve concentrada em coletar documentos, lançar informações, conferir dados, conciliar contas, preparar obrigações, acompanhar alterações fiscais e produzir relatórios. Essas atividades continuam sendo essenciais, mas uma parcela crescente delas pode ser realizada ou apoiada por sistemas de automação e Inteligência Artificial.
A consequência é uma mudança importante na natureza do trabalho. Afinal, o contador começa a deixar de ser predominantemente um processador de informações para se tornar um intérprete de informações. Esse é um aspecto interessante para ser discutido nesse Dia do Contador, celebrado em 22 de setembro.
A discussão ganha força justamente, porque a Inteligência Artificial avança rapidamente na contabilidade. O Future of Professionals Report 2025, da Thomson Reuters, mostra que 79% dos profissionais de Contabilidade, auditoria e tributos esperam que a IA provoque um impacto alto transformacional em suas atividades nos próximos cinco anos. O levantamento ouviu profissionais de mais de 25 países.
A pesquisa também revela uma distância entre expectativa e preparação. Apenas 14% dos profissionais afirmam que suas organizações já possuem uma estratégia de IA definida. Ao mesmo tempo, os entrevistados estimam que a tecnologia possa proporcionar uma economia média de cinco horas de trabalho por semana por profissional.
Para Mauricio Frizzarin, fundador e CEO da QYON – empresa norte-americana especializada em Inteligência Artificial e Agentes de IA – esses números apontam para uma mudança muito mais profunda do que simplesmente automatizar tarefas. “A contabilidade sempre foi uma profissão baseada em informação. O que está mudando é o que o profissional faz com esses dados. Se antes boa parte do tempo era consumido para coletar, organizar, conferir e processar esses dados, a tecnologia começa a assumir uma parcela desse trabalho. O contador ganha tempo para interpretar o que os números estão dizendo”, avalia o executivo.
A transformação pode ser observada em tarefas que tradicionalmente consomem muitas horas dos profissionais. Sistemas inteligentes já podem, por exemplo, auxiliar na organização e classificação de documentos, na conciliação bancária, na identificação de inconsistências, na conferência de informações, no monitoramento de obrigações e no acompanhamento de mudanças regulatórias. Com isso, o papel do contador tende a se deslocar para atividades que dependem mais de conhecimento técnico e julgamento profissional, como explicar resultados, identificar riscos, interpretar indicadores, orientar decisões, avaliar cenários tributários e apoiar o empresário na gestão do negócio.
“Existe uma diferença enorme entre informar ao empresário que determinada despesa aumentou e explicar por que ela aumentou, qual impacto terá no caixa e o que ele pode fazer a respeito. A primeira atividade pode ser cada vez mais automatizada. A segunda exige conhecimento, contexto e capacidade de interpretação”, explica Frizzarin.
Essa transformação pode ser especialmente relevante para pequenas e médias empresas. Em muitos negócios menores, o contador ainda representa uma das principais fontes externas de informação para o empresário. Quando o profissional consegue reduzir o tempo dedicado às rotinas operacionais, abre-se espaço para ampliar sua atuação como consultor e parceiro de gestão. Para uma pequena empresa, por exemplo, ter um contador que apenas processa informações é muito diferente de ter um profissional que consegue olhar os dados e dizer ao empresário onde estão os riscos, quais custos estão crescendo, como está a margem e o que precisa ser corrigido. A IA pode ajudar a tornar esse segundo modelo economicamente viável para uma parcela muito maior das PMEs.
O movimento também pode mudar o modelo de negócio dos próprios escritórios contábeis. Em vez de crescer exclusivamente aumentando o número de funcionários para acompanhar uma carteira maior de clientes, os escritórios podem utilizar automação e agentes de IA para ampliar sua capacidade operacional e, simultaneamente, elevar o nível de serviço oferecido. A Thomson Reuters aponta justamente essa possibilidade ao analisar o impacto da IA sobre o setor, visto que a automação de tarefas rotineiras pode liberar profissionais para serviços de maior valor e ajudar os escritórios a enfrentar desafios relacionados à escassez de talentos.
Para Frizzarin, a principal mudança não está na importância da profissão, mas na natureza da contribuição que o profissional oferece. O especialista acredita que o pior cenário seria imaginar que a IA vai tornar o contador desnecessário, mas o que está acontecendo é o contrário. Quanto mais informação uma empresa produz, maior é a necessidade de alguém capaz de interpretar essa informação corretamente, entender o contexto e orientar o empresário. Isso também significa que a formação do profissional precisará acompanhar a transformação. Além do conhecimento contábil e tributário, competências como análise de dados, interpretação de indicadores, comunicação, visão de negócios e domínio de ferramentas digitais tendem a ganhar importância.
“O contador do futuro não será aquele que sabe fazer mais lançamentos ou conferir mais documentos. Será aquele que consegue transformar informação contábil em inteligência para o negócio. A tecnologia cuidará cada vez mais do processamento; o diferencial humano estará na interpretação”, finaliza o CEO da QYON.
Maurício Frizzarin
