Juros altos e crédito restrito são alguns dos fatores que levaram o Brasil a bater recorde de recuperações judiciais no primeiro trimestre de 2026. Segundo levantamento do Monitor RGF de Recuperação Judicial foram registrados 5.931 pedidos no período, o maior volume da série história do indicador.
Como os casos só continuam crescendo, fortalecem a evidente onda de quebradeira no Brasil. Notadamente, o País vive uma epidemia de recuperação judicial, registrada no primeiro semestres do ano e, nos últimos dias, com o escandaloso caso da Casas Bahia que fechou 300 lojas e demitiu 3 mil pessoas, tentando administrar uma dívida de R$ 17,3 bilhões.
Na esteira da Casas Bahia, no dia 17 ultimo, a rede de lojas Marabrás também entrou com o pedido de recuperação judicial, para negociar uma dívida de R$ 140 bilhões. A Rede de móveis e eletrodomésticos atribui a decisão ao cenário difícil do varejo, à dificuldade de acesso ao crédito e a questões familiares, mas afirma que as lojas seguirão funcionando normalmente durante o processo,
Mas a onda de quebradeira não parou por ai: este ano várias famosas do varejo também entraram em recuperação judicial, como é o caso do Grupo Toky, controlador daTok&Stok e da Mobly, que teve seu pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça de São Paulo em junho de 2026, com dívidas superiores a R$ 1 bilhão. As lojas físicas e os sites continuam operando normalmente para tentar reestruturar o passivo do grupo.
Seguiram pelo mesmo caminho, o Grupo Pão de Açúcar e a Estrela de brinquedos pediram recuperação judicial em março. No ano passado quem entrou em recuperação judicial foi a Polishop, a Bombril, e a Casa do Pão de Queijo, todos com dívidas significativas, e o cenário só tem se agravado.
A Oncoclínicas, por exemplo, não está em recuperação judicial tradicional, mas teve o processamento de sua recuperação extrajudicial deferido em agosto de 2026 pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O processo visa reorganizar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras sem interromper as operações médicas ou o atendimento aos pacientes.
Semelhantemente a Braskem S.A. não entrou com pedido de recuperação judicial no Brasil, mas obteve uma tutela cautelar de urgência para suspender cobranças de credores financeiros e negocia uma recuperação extrajudicial. No entanto, sua subsidiária no exterior, a Braskem Idesa (no México), entrou com pedido de proteção contra falência (Chapter 11) nos Estados Unidos. No Brasil, a empresa obteve uma Tutela Cautelar concedida pela Justiça de São Paulo, em junho de 2026, para suspender execuções financeiras por 60 dias, ganhando fôlego para reestruturar uma dívida global de cerca de US$ 10 bilhões.
Os motivos da quebradeira são os mesmos. E neste cenário devastador, a pergunta que nos vem é: quem será a próxima vitima?
Esse crescimento de pedidos de recuperação judicial, na visão do sócio fundador da Ipê Avaliações, Fábio Murad, é devido a um cenário macroeconômico desfavorável, o qual combina pressões financeiras que impactam de forma direta a capacidade de pagamentos das organizações. Para ele, existem alguns fatores que são intrínsecos a esse cenário, como:
- Taxas de juros elevadas: elas são responsáveis pelo aumento do custo do crédito e reduzem a capacidade de refinanciamento de dívidas;
- Restrição de crédito: isso torna o acesso a novos financiamentos mais seletivo;
- Inflação persistente: esse cenário pressiona os custos operacionais e encurta as margens de lucro;
- Cenário exterior: com a alta nos preços das commodities e a volatilidade cambial, há um aumento de custos que pressiona o fluxo de caixa das empresas.
Por sua vez, o especialista em finanças Pabro Spyer, CEO da Vai Tourinho, e comentarista da Jovem Pan, sentencia que o cenário começa a lembrar as crises de 2014 /2016, quando uma combinação de recessão, juros altos, desemprego e queda do consumo, colocaram grandes empresas contra a parede. “Serão esses os primeiros sinais de uma onda de quebradeira no Brasil? Será que o pior ainda está por vir? Se esses forem só os primeiros corpos a aparecerem na água, pode vir muita coisa podre por ai,” diz o especialista.
Fábio Murad vai ainda mais longe em sua análise. Para ele os indicadores macroeconômicos desfavoráveis, como juros altos, crédito seletivo e pressão inflacionária, são os principais fatores que puxam esse índice para uma ascensão contínua no futuro próximo. “A estabilização só deve ocorrer quando houver relaxamento consistente das condições de crédito, queda de juros ou melhoria significativa no fluxo de caixa corporativo”, conclui Murad.
Da redação do Portal Dedução com informações do Fontes: Monitor RGF de Recuperação Judicial, Pablo Spyer.
