A busca por estabilidade profissional deixou de ser vista como sinal de acomodação e passou a ocupar o centro das estratégias de saúde mental e sustentabilidade da carreira no Brasil. É o que revela a Pesquisa Carreira dos Sonhos 2025, da Cia de Talentos, realizada com mais de 73 mil profissionais, que aponta uma mudança estrutural na forma como trabalhadores – especialmente jovens – se relacionam com o mercado de trabalho.
Em um cenário marcado por pressão constante, instabilidade econômica e esgotamento emocional, a estabilidade passou a ser compreendida como um fator de proteção psíquica. O conceito vai além do salário e engloba segurança financeira, ambiente organizacional saudável, reconhecimento e perspectiva real de continuidade dentro da empresa.
Segundo o levantamento, 62% dos jovens apontam a estabilidade como prioridade, sem abrir mão da ambição: 52% ainda buscam crescimento profissional e 45% realização no trabalho. Para Danilca Galdini, sócia-diretora de Pessoas & Cultura e Insights da Cia de Talentos, o movimento não indica retração de carreira, mas uma resposta racional às condições atuais do mercado. “O que mudou não foi a ambição, mas a disposição de pagar por ela com adoecimento”, afirma.
Novo comportamento impacta engajamento e gestão de pessoas
A pesquisa também identificou a chamada “relação freemium” com o trabalho: diante de promessas não cumpridas e ambientes de alta pressão, profissionais passaram a regular seu nível de engajamento como forma de autoproteção emocional. O esforço extra deixa de ser automático e passa a depender de reconhecimento, condições concretas e perspectivas reais de desenvolvimento, o que impõe novos desafios à liderança e às políticas de gestão de pessoas.
Para empresas dos setores contábil e empresarial, o alerta é claro: estratégias tradicionais de cobrança por performance sem contrapartidas estruturadas de bem-estar tendem a perder efetividade e aumentar riscos de turnover e queda de produtividade.
Bem-estar entra no radar como indicador de negócio
Dados do Panorama do Bem-Estar Corporativo, do Wellhub, reforçam o impacto direto desse movimento nos resultados das organizações. De acordo com o estudo:
- 86% dos profissionais consideram o bem-estar tão importante quanto o salário nos processos de atração e retenção;
- 89% afirmam performar melhor quando priorizam a saúde física e mental;
- Empresas com programas estruturados de bem-estar registram 30% menos rotatividade, 30% menos absenteísmo e até 35% de redução de custos relacionados à saúde.
No Brasil, o tema ganha ainda mais relevância diante dos dados do INSS: transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, com mais de 280 mil benefícios por incapacidade concedidos em um único ano (2023) por diagnósticos como ansiedade e depressão.
Estabilidade como pilar da sustentabilidade organizacional
Para Ricardo Guerra, líder do Wellhub no Brasil, ainda há um descompasso entre o discurso e a prática nas organizações. “O bem-estar segue sendo tratado como escolha individual, quando deveria ser encarado como uma estratégia organizacional estruturante, com impacto direto na produtividade e na sustentabilidade do trabalho”, avalia.
Do ponto de vista da saúde mental, a previsibilidade no trabalho passou a ser vista como uma necessidade psicológica. Ambientes marcados por incerteza prolongada mantêm o profissional em estado contínuo de alerta, elevando riscos de ansiedade crônica e exaustão emocional. “A falta de clareza sobre decisões e rumos gera sensação de perda de controle, o que afeta diretamente o bem-estar”, explica a psicóloga Danielle Galetti, diretora de RH na Pub.
Para o meio empresarial, especialmente em áreas de alta pressão como o setor contábil, o recado é estratégico: estabilidade, comunicação clara, previsibilidade e ambientes saudáveis deixaram de ser benefícios acessórios e passaram a ser condições mínimas para engajamento sustentável, retenção de talentos e desempenho consistente.
Da Redação do Portal Dedução
