A Black Friday se consolidou como uma das datas mais relevantes do varejo brasileiro, influenciando não apenas hábitos de consumo, mas decisões financeiras que impactam o orçamento familiar e o planejamento das empresas. Se em 2024, o faturamento cresceu, impulsionado pelo e-commerce, pelo crédito facilitado e por modelos de parcelamento cada vez mais longos; em 2025, o 15º ano da data no Brasil, a tendência se intensificou: a Black November – que espalha promoções ao longo de todo o mês – bateu recordes e alterou o padrão tradicional de compras.
Mas, enquanto as oportunidades se multiplicam, também aumentam os riscos de endividamento, golpes e decisões impulsivas. Para o educador financeiro e contador André Charone, referência nacional em finanças pessoais, a data revela um problema que vai além da sazonalidade: a ausência de planejamento.
“Promoção não pode ser desculpa para gastar mais do que se pode pagar. A Black Friday expõe, todos os anos, o quanto as famílias ainda confundem desconto com vantagem financeira”, afirma.
Descontos enganosos ainda dominam o cenário
Mesmo com fiscalização crescente, o chamado “desconto fake” continua no topo das armadilhas. A prática se baseia na elevação prévia do preço para, depois, anunciar uma falsa redução.
“O consumidor que não acompanha os preços ao longo do ano vira refém da propaganda”, alerta Charone. Nesse aspecto, ferramentas de monitoramento seguem como principal defesa.
Parcelamento estendido cria ilusão de folga no orçamento
Outro problema é facilidade no crédito, que dilui a percepção de gasto real e compromete meses de renda futura.
“O parcelamento dilui a dor do pagamento, mas o problema aparece nos meses seguintes, quando várias parcelas se acumulam”, explica.
A recomendação é que os compromissos no cartão não ultrapassem 30% da renda líquida mensal – orientação válida tanto para consumidores quanto para pequenos empresários.
Impulso, urgência e compras desnecessárias
O senso de oportunidade pode transformar supérfluos em gastos que fogem do controle.
“Preço baixo não transforma supérfluo em necessidade. Compra impulsiva é, muitas vezes, o início do descontrole financeiro”, afirma Charone, enfatizando que listas de prioridades e limites pré-definidos ajudam a evitar prejuízos.
Golpes digitais crescem com a demanda
A Black Friday é terreno fértil para fraudes: sites falsos, boletos adulterados, links suspeitos e perfis clonados.
Entre as recomendações:
- Conferir CNPJ
- Desconfiar de preços muito abaixo do mercado
- Priorizar meios de pagamento seguros
- Evitar links enviados por mensagens
“O golpe se aproveita da pressa. Quando a oferta parece boa demais, quase sempre é”, reforça.
Black November reforça mudança no comportamento de compra
Dados da base da Senior Sistemas mostram que mais de 5,3 milhões de pedidos foram registrados até o dia 23 de novembro – alta de 6,9% na comparação com 2024. Foram movimentados mais de 206 milhões de itens, crescimento de 9,2%. A média de 3,3 produtos por pedido sugere um consumidor mais diversificado e atento às ofertas distribuídas ao longo do mês.
O pico ocorreu em 11 de novembro, com 360 mil pedidos e 1,53 milhão de itens enviados – aumentos de 40% e 57%, respectivamente.
Para Anderson Benetti, head de Logística da Senior, o fenômeno simboliza um consumidor mais estratégico:
“Os consumidores estão distribuindo as decisões ao longo de todo o mês, buscando melhores preços e mais tempo para comparar ofertas.”
A antecipação também favorece o varejo, ao reduzir a pressão sobre centros de distribuição e melhorar a eficiência logística.
Onde entra a Contabilidade? A Black Friday como termômetro financeiro
Se para consumidores a data representa risco de endividamento, para empresas – especialmente pequenos negócios – ela expõe fragilidades de gestão financeira, precificação e controle de fluxo de caixa.
Profissionais contábeis atuam cada vez mais como pilares estratégicos, ajudando empresas a:
- calcular margens reais de desconto sem comprometer rentabilidade
- controlar impacto do parcelamento nas receitas futuras
- projetar cenários de demanda e estoque
- identificar riscos tributários nas campanhas de vendas
- avaliar o custo logístico das promoções antecipadas
- evitar armadilhas fiscais em operações omnichannel
A explosão da Black November reforça a necessidade de organização financeira o ano todo, tanto na vida pessoal quanto na empresarial.
“O brasileiro aprendeu a consumir antes de aprender a planejar”, diz Charone.
Para ele, a educação financeira – pessoal ou corporativa – é o antídoto duradouro contra prejuízos.
Planejamento como ponto de virada
Apesar dos riscos, a data pode ser vantajosa quando alinhada ao planejamento de:
- compra de equipamentos de trabalho
- troca de ferramentas essenciais
- antecipação de despesas previstas
- investimentos estratégicos para empresas
“A diferença entre oportunidade e cilada está no planejamento. Sem ele, até o maior desconto vira prejuízo”, afirma Charone.
O papel do profissional contábil no novo cenário do varejo digital
A combinação de promoções prolongadas, alta velocidade logística, múltiplos meios de pagamento e marketplace como canal dominante torna o ambiente mais complexo — tanto para consumidores quanto para empresas.
Os contadores passam a assumir funções que vão além da apuração tributária. Tornam-se:
- consultores estratégicos de precificação
- analistas de risco financeiro
- orientadores de compliance fiscal
- guardiões do caixa em períodos de alto volume de vendas
Nesse contexto, especialistas como André Charone têm avançado também para orientar empresários. Em seu livro mais recente, “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, Charone amplia essa abordagem ao oferecer um guia pragmático sobre expansão internacional, precificação para o mercado externo e prevenção de armadilhas no comércio global – paralelos diretos com os cuidados necessários em períodos de promoções massivas como a Black Friday.
Da Redação do Portal Dedução
