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*Mauricio Frizzarin

Durante décadas, liderar uma empresa significou estar no centro de praticamente todas as decisões. O empresário acompanhava indicadores, aprovava pagamentos, resolvia problemas operacionais, validava relatórios e supervisionava diferentes etapas do negócio. Esse modelo foi importante por muito tempo, mas a forma de liderar está evoluindo. Com o avanço da Inteligência Artificial (IA), muitas atividades operacionais passam a contar com novas ferramentas de apoio, permitindo que os líderes dediquem mais tempo às decisões estratégicas, à inovação e ao crescimento do negócio.

Grande parte do debate sobre IA ainda tem relação com a crença relacionada à substituição de empregos. No entanto, uma pergunta cada vez mais relevante é: como será a liderança em um cenário em que a tecnologia contribui para tornar a execução operacional mais ágil e eficiente? Essa transformação já está em andamento e abre espaço para um novo papel dos líderes, com foco cada vez maior em visão, relacionamento e tomada de decisões.

Se a primeira geração da Inteligência Artificial produzia respostas, a nova geração, baseada em Agentes de IA, passa a executar tarefas. Esses sistemas monitoram processos, organizam informações, conciliam dados, acompanham indicadores e realizam fluxos administrativos completos, sempre sob supervisão humana. Tanto, que de acordo com o Microsoft Work Trend Index 2025, 82% dos líderes afirmam que precisarão repensar profundamente a estratégia operacional de suas empresas, enquanto o mesmo percentual pretende incorporar Agentes de IA para ampliar a capacidade das equipes. O estudo aponta, ainda, o surgimento das chamadas ‘Frontier Firms’, organizações que passam a operar com equipes híbridas formadas por pessoas e agentes inteligentes.

Essas mudanças redefinem, fundamentalmente, o papel da liderança. Afinal, durante muito tempo, bons empresários foram aqueles que conheciam profundamente a operação e resolviam problemas diariamente. A verdade é que essa competência deixará de ser suficiente. À medida em que agentes inteligentes assumem atividades repetitivas, o diferencial competitivo migra para aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: visão estratégica, capacidade de decisão, construção de cultura, desenvolvimento de pessoas e relacionamento com clientes.

A McKinsey descreve esse movimento como o nascimento das chamadas “organizações agênticas”, nas quais Inteligência Artificial e profissionais trabalham lado a lado para redesenhar processos inteiros. O impacto vai muito além da produtividade, visto que estamos diante de um novo modelo de gestão que, para pequenas e médias empresas, pode ser uma mudança ainda mais significativa. Isso, porque historicamente, os fundadores dessas companhias costumam acumular funções de diretor financeiro, comercial, gestor de pessoas e responsável pela operação. Com os Agentes de IA assumindo parte das rotinas administrativas, esses empresários recuperam o recurso mais escasso dentro das empresas, que é o tempo.

Esse ativo vai ser essencial para que o empresário possa conversar com clientes, desenvolver novos negócios, fortalecer parcerias, analisar oportunidades e pensar no futuro da organização. Naturalmente, essa evolução exige responsabilidade. Governança, qualidade dos dados, segurança da informação e supervisão humana tornam-se ainda mais importantes. Ou seja, a IA não substitui a liderança. Ao contrário, aumenta sua relevância.

Acredito, inclusive, que o empresário do futuro será mais reconhecido pela habilidade de construir organizações em que pessoas e agentes inteligentes trabalhem de forma complementar. Quem insistir em concentrar todas as decisões continuará sobrecarregado e aqueles que aprenderem a delegar parte da execução para sistemas inteligentes ganhará velocidade, eficiência e capacidade de crescimento.

Por isso, acredito que a Inteligência Artificial não substituirá os empresários. Ela substituirá um modelo de liderança baseado no excesso de controle operacional. A verdadeira revolução não será tecnológica, mas gerencial. Pela primeira vez em décadas, a tecnologia oferece aos empresários a oportunidade de voltar a fazer aquilo que sempre deveria ser sua principal responsabilidade: liderar o futuro do negócio, em vez de apenas administrar seu presente.

Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON, empresa norte-americana, com unidade de desenvolvimento no Brasil, especializada em Inteligência Artificial aplicada à gestão empresarial e transformação digital de pequenas e médias empresas e escritórios de contabilidade – www.qyon.com

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