Experiência e Excelência em jornalismo contábil, tributário e de negócios

Levantamento nacional mostra estabilidade das equipes, ampliação do escopo do compliance, lacunas em auditorias e KPIs e avanço ainda limitações do uso estratégico de tecnologia e IA

O compliance brasileiro entra em 2026 em um momento de inflexão: mais maduro do ponto de vista estrutural, porém específicos por equipes enxutas, escopo crescente e dificuldade para demonstrar valor estratégico ao negócio. Esse é o retrato traçado pela terceira edição da Pesquisa Nacional sobre Necessidades e Tendências do Compliance , liderada pela Be.Aliant, empresa líder em soluções integradas de Compliance, Ética, GRC, Privacidade e Regulatório, e Protiviti Brasil , consultoria global especializada em gestão de riscos, tecnologia e inovação.

O estudo aponta que a discussão já não é mais se as empresas “têm compliance”, mas se seus programas realmente cobrem, de forma efetiva, os riscos atuais do ambiente corporativo. De acordo com Cyro Diehl , cofundador da Be.Aliant, o setor evoluiu de forma consistente nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios estruturais relevantes. “O compliance brasileiro amadureceu institucionalmente, mas ainda convive com gargalos históricos, principalmente relacionado à profundidade dos programas, integração de processos e eficiência operacional”, afirma.

Na linha com essa análise, Mauricio Fiss , cofundador da Be.Aliant, reforça que o contexto atual exige mais pressão por resultados e comprovação de valor. “A área deixou de ser experimental e passou a operar sob forte cobrança por efetividade, com menos espaço para crescimento de equipes e maior necessidade de demonstrar impacto real para o negócio”, complementa.

Tempos resultantes, escopo em expansão

Segundo a pesquisa, 64% das empresas pretendem manter o tamanho de suas equipes de compliance em 2026, enquanto 30,7% planejam expandir o tempo e apenas 4,8% preveem redução. A maior parte das estruturas continua enxuta, 65% operam com duas a cinco pessoas, e 12% contam com apenas um profissional dedicado à função.

Ao mesmo tempo, o escopo de atuação cresce de forma consistente. Hoje, 58,1% dos tempos de compliance acumulam Gestão de Riscos, 46,5% respondem por Controles Internos, 38,7% participam diretamente com Privacidade de Dados, impulsionados por demandas da LGPD, 21,7% atendem demandas de Auditoria Interna e 14,7% absorvem parte do Jurídico. Também ganham espaço temas tradicionalmente ligados a outras áreas, como riscos psicossociais, assédio e relações trabalhistas, refletindo a vigência da NR-01 e legislações recentes voltadas à proteção do ambiente de trabalho.

Para Mauricio Fiss , esse cenário cria um paradoxo operacional. “As empresas entenderam a importância do compliance, mas não ampliaram os recursos na mesma proporção em que expandiram as responsabilidades. Fazer mais com menos se tornou a regra, e isso exige método, priorização e uso inteligente de tecnologia para não comprometer a efetividade”, explica.
 

A “ilusão de maturidade” dos programas de integridade

Embora os pilares básicos sejam totalmente implementados — 96,9% das empresas possuem canal de denúncias, 94,6% têm código de conduta, 84,5% realizam investigações internas, 80,4% executam ações de treinamento e comunicação e 76,7% recebem suporte da alta administração — o estudo revela lacunas estruturais que comprometem a maturidade real dos programas. Apenas 36% das organizações realizam auditorias periódicas de seus Programas de Integridade, metade não utiliza KPIs para medir a efetividade das ações, 60% não realiza due diligence universal de terceiros e um terço ainda falha na avaliação de integridade dos colaboradores na contratação.

Para Cyro Diehl , este é um dos pontos mais sensíveis revelados pelo estudo. “Há uma distância significativa entre ter um programa de compliance implementado e ter um programa eficaz. Muitas organizações acreditam que amadureceram, mas os dados mostram que ainda falta profundidade, continuidade e comprovação objetiva dos resultados. A ausência de auditorias, métricas e diligência ampla cria uma sensação de maturidade que não se sustenta quando surgem crises ou questionamentos regulatórios”, destaca.

Sobrecarga operacional e necessidade de integração de clusters de impacto

Os profissionais de compliance relatam realizar até 20 atividades diferentes, muitas de forma manual e simultânea. Entre as práticas mais comuns estão gestão de políticas, treinamentos, gestão de canais de denúncia e condução de investigações internacionais. No entanto, atividades estratégicas como avaliações de riscos, auditorias internas e diligências de terceiros aparecem com alta importância percebida, mas baixa frequência de execução, redução de sobrecarga operacional e falta de priorização estrutural.

Diante desse cenário, a pesquisa indica três caminhos prioritários para 2026: fortalecer parcerias estratégicas com áreas como TI, RH e Jurídico; automação de tarefas repetitivas para liberar tempo para ações analíticas; e reorganização das atividades em clusters integrados de Prevenção, Detecção e Remediação.

Segundo Mauricio Fiss , a forma de organizar o trabalho faz diferença na capacidade de entrega. “Compliance não pode ser tratado como uma lista fragmentada de tarefas. Quando o trabalho é estruturado em clusters de impacto, uma área ganha foco, escala e capacidade real de mensurar resultados, algo essencial em equipes pequenas. Sem alianças internacionais, uma área não consegue acompanhar a velocidade e a complexidade dos riscos”, explica.

Tecnologia existe, integração ainda não

O estudo mostra avanço no uso da tecnologia: 84% das empresas utilizam algum tipo de solução digital em compliance e 91,5% consideram a inteligência artificial uma tendência prioritária. Na prática, porém, apenas 33% já implementaram IA em suas rotinas, e os níveis de satisfação ainda são baixos em aplicações como avaliação de riscos, monitoramento contínuo e verificação de antecedentes.

A principal barreira não é a falta de ferramentas, mas a fragmentação de dados, que impede análises preditivas, visão integrada de riscos e uso avançado de automação. Para Cyro Diehl , o desafio agora é evolutivo. “As empresas já avançaram na aquisição de tecnologia, mas a verdadeira transformação acontece quando dados, processos e sistemas passam a conversar entre si. Sem integração, o compliance continua reativo, quando deveria caminhar para um modelo preventivo e orientado por inteligência”, avalia.

Orçamento pressionado e obrigações de provar valor

Em um ambiente de maior cautela econômica, 60% dos profissionais esperam estabilidade orçamentária em 2026, 55% consideram o orçamento atual adequado, 45% afirmam que ainda é insuficiente frente às responsabilidades da área, enquanto 22% projetam redução de recursos e apenas 18% planejam aumento.

Nesse cenário, Fernando Fleider, CEO da Protiviti Brasil, reforça que a demonstração de valor será determinante para o futuro da área. Mostrar impacto deixou de ser diferencial e passou a ser requisito. “O setor avançou quando desenvolve capacidade de traduzir suas ações em indicadores compreendidos pela liderança, mostrando impactos financeiros, redução de riscos e fortalecimento da cultura organizacional”, finaliza.

Para acessar o estudo completo, basta acessar o link .

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *