A escala 6×1 voltou ao centro do debate nacional – e não por acaso. Em meio a discussões sobre possíveis mudanças estruturais na jornada de trabalho, as empresas já enfrentam uma pressão concreta e com data marcada: a entrada em vigor da nova NR-1, prevista para maio de 2026.
O que antes era tratado como rotina operacional – organizar escalas, controlar ponto, ajustar folgas – passa a integrar oficialmente o gerenciamento de riscos das empresas. E isso muda tudo.
Para empresários e contadores, o recado é direto: jornada de trabalho virou variável estratégica, com impacto simultâneo em custo, produtividade e risco jurídico.
Dados mostram sobrecarga, e acendem alerta antes da norma
Levantamentos recentes indicam que o desafio já está instalado dentro das operações.
Entre trabalhadores submetidos à escala 6×1, 15% acumulam jornadas entre 44 e 54 horas semanais, enquanto 3% chegam a faixas entre 54 e 64 horas. Embora esses números não configurem, por si só, irregularidade, revelam padrões de sobrecarga que passam a exigir monitoramento mais rigoroso.
Setores como comércio, que concentra 49% dessas escalas, bares e restaurantes, saúde e serviços administrativos estão entre os mais expostos.
Para Cássio Carvalho, diretor-executivo de negócios da VR, o problema não está apenas no modelo de jornada, mas na forma como ele é gerido.
“Quanto menor o nível de controle e acompanhamento das escalas, mais complexo se torna administrar a carga horária. Isso acaba resultando em acúmulo de horas extras e maior exposição a riscos, especialmente com a entrada da NR-1”, afirma.
NR-1 amplia responsabilidade
A nova NR-1 não define qual escala deve ser adotada, mas exige que as empresas identifiquem, avaliem e controlem riscos relacionados à organização do trabalho dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos – PGR.
Isso inclui diretamente:
- jornadas excessivas
- pausas e interjornadas
- gestão de escalas
- impactos psicossociais
Na prática, a organização do trabalho passa a ser auditável.
E as consequências são concretas: empresas que não implementarem controles adequados podem sofrer multas administrativas e até interdição de atividades, em casos mais graves.
Para Cássio Carvalho, a mudança exige uma revisão de cultura, não apenas de processos.
“O cuidado com as pessoas precisa ser prioridade estratégica dos negócios. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional, descanso adequado e acompanhamento de jornada deixam de ser ações pontuais e passam a integrar a cultura organizacional”, diz.
Debate sobre escala 6×1 amplia complexidade da decisão
A possível revisão da escala 6×1 adiciona uma camada extra de pressão.
Segundo Thiago Mancilha Guimarães, diretor de Risk Advisory e Internal Audit da Protiviti, o impacto vai muito além da carga horária.
“Quando falamos da mudança da escala 6×1, a discussão não envolve apenas quantos dias se trabalha, mas também a jornada semanal total e o modelo operacional de cada empresa”, explica.
O desafio central está em manter o nível de serviço sem elevar significativamente os custos.
“Se um varejista decide reduzir equipe para equilibrar custos, pode comprometer o atendimento e perder receita. Se mantém a estrutura sem ajuste, pressiona margem. É preciso analisar custo, receita e nível de serviço de forma integrada”, afirma.
Contador assume papel estratégico na equação
Diante desse cenário, o contador ganha protagonismo.
A gestão de jornada deixa de ser apenas um tema de RH e passa a exigir leitura financeira e estratégica. Isso envolve:
- análise de custo de pessoal
- impacto de horas extras e encargos
- simulação de cenários operacionais
- avaliação de riscos trabalhistas
Para Thiago Mancilha, decisões baseadas apenas em custo tendem a falhar.
“Analisar apenas a folha de pagamento não é suficiente. É necessário cruzar dados de operação, vendas e produtividade para entender o impacto real das mudanças”, destaca.
Tecnologia e dados passam a sustentar decisões
A adaptação à NR-1 e às mudanças na jornada passa, necessariamente, pelo uso de dados.
Ferramentas de analytics permitem:
- identificar distorções de produtividade
- mapear sobrecarga e ociosidade
- simular diferentes modelos de escala
- antecipar picos de demanda
“A reorganização da jornada precisa considerar demanda operacional, regras legais e eficiência. Quando isso é feito com base em dados, é possível encontrar equilíbrio entre custo, produtividade e conformidade”, afirma Thiago Mancilha.
Ajustes urgentes: o que empresas precisam fazer agora
Com a nova NR-1 prestes a entrar em vigor, especialistas apontam que os próximos 90 dias serão decisivos.
Entre as principais ações recomendadas estão:
- mapear padrões recorrentes de horas extras
- comparar diferentes modelos de escala dentro da operação
- revisar pausas e períodos de descanso
- integrar a gestão de jornada ao PGR
- implementar monitoramento contínuo com apoio tecnológico
Segundo Cássio Carvalho, o uso de dados pode inclusive evitar custos futuros.
“Empresas que utilizam ferramentas de acompanhamento conseguem maior previsibilidade e atuam preventivamente, reduzindo riscos trabalhistas e impactos financeiros no longo prazo”, afirma.
Entre a obrigação e a oportunidade
A convergência entre a nova NR-1 e o debate sobre a escala 6×1 coloca empresas diante de uma escolha estratégica.
Tratar a mudança como obrigação legal – e reagir; ou usar o momento para reorganizar operação, reduzir riscos e ganhar eficiência. Empresas que se anteciparem tendem a transformar um ponto de pressão em vantagem competitiva. As demais correm o risco de descobrir [tarde demais] que jornada de trabalho deixou de ser rotina e passou a ser risco de negócio.
Da Redação do Portal Dedução
