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Especialista em tributação internacional aponta a armadilha mais comum de quem leva operações ao mercado americano sem entender a lógica fiscal do país

Expandir para os Estados Unidos é o sonho de muitas empresas brasileiras. Mas o que deveria ser uma oportunidade de crescimento pode se transformar em uma fonte inesperada de custos tributários – e o motivo, segundo especialistas, é mais simples do que parece: a maioria das companhias chega ao mercado americano fazendo as perguntas erradas.

“No Brasil, a preocupação costuma começar pela pergunta: ‘quanto vou pagar de imposto?’. Nos Estados Unidos, essa é a pergunta errada para começar”, afirma Igor Meireles, contador e sócio responsável pelas áreas Contábil e Tributária da Bernhoeft, consultoria brasileira com larga experiência em estruturação de empresas no Brasil e no exterior.

Para Meireles, o problema não é falta de competência, mas de mentalidade. Brasil e EUA não apenas tributam de formas diferentes – eles pensam a tributação de formas diferentes. E essa distinção, quando ignorada, tem custo.

O ponto de partida errado

No Brasil, o sistema tributário é estruturado, sobretudo, sobre o consumo. Impostos percorrem toda a cadeia produtiva, acumulam-se e chegam embutidos no preço final de produtos e serviços. Já nos Estados Unidos, a tributação se organiza principalmente em torno da renda, enquanto os tributos sobre consumo – os chamados sales taxes – aparecem de forma descentralizada, variando de estado para estado e, em muitos casos, de município para município.

Essa diferença de estrutura muda radicalmente a forma de tomar decisão. E é aí que mora a armadilha.

“Antes de qualquer cálculo, o ponto central é outro: como aquela operação será classificada e documentada do ponto de vista fiscal. Parece sutil, mas não é”, alerta Meireles.

Uma empresa brasileira que presta serviços a um cliente nos EUA, por exemplo, pode incorrer em custos desnecessários simplesmente por não compreender como aquele pagamento será enquadrado pela Receita americana. A definição da natureza da renda, o status fiscal das partes envolvidas e as regras de retenção na fonte – e não apenas a alíquota aplicável – é o que determina o resultado tributário da operação.

Dois sistemas, duas complexidades

Quando se fala em complexidade tributária, o Brasil ocupa posição de destaque no ranking mundial – e não sem razão. A combinação entre alta carga operacional, múltiplos tributos e um volume intenso de obrigações acessórias cria um ambiente de compliance contínuo, com entregas mensais e cruzamentos constantes de dados.

Nos Estados Unidos, a complexidade se manifesta de outra forma. Ela está menos na burocracia do dia a dia e mais na necessidade de enquadrar corretamente cada operação e sustentar essa classificação com documentação adequada.

“No Brasil, a eficiência tributária costuma estar ligada à gestão de processos, classificação fiscal de produtos e organização da cadeia de consumo. Nos Estados Unidos, ela está muito mais relacionada ao planejamento de renda, à estrutura societária e à consistência das declarações financeiras e fiscais”, explica o especialista da Bernhoeft.

O próprio calendário fiscal reforça essa diferença. Nos EUA, a chamada tax season organiza o mercado em torno de prazos padronizados – o tradicional deadline de abril funciona como um marco financeiro, obrigando empresas e pessoas físicas a consolidarem receitas, deduções e pagamentos de uma só vez. Mesmo quando há extensão para a entrega da declaração, o pagamento do imposto permanece atrelado ao prazo original, forçando um planejamento de caixa antecipado.

No Brasil, esse tipo de concentração não existe. O compliance é permanente, o que dilui a pressão ao longo do ano, mas eleva a complexidade operacional de forma contínua.

Royalties, dividendos e o risco da dupla tributação

Para empresas que operam – ou pretendem operar – simultaneamente nos dois países, o desafio vai além de entender dois sistemas fiscais distintos. É preciso garantir coerência entre eles.

Fluxos como serviços, royalties, juros e dividendos exigem atenção redobrada. A classificação incorreta pode gerar retenções indevidas, risco de dupla tributação e custos que seriam perfeitamente evitáveis com uma estrutura mais bem definida desde o início.

“É um erro tratar essas operações como independentes. Elas estão conectadas, e a gestão eficiente depende de uma governança contábil e tributária integrada, com dados consistentes e alinhamento entre as jurisdições”, ressalta Meireles.

A reforma tributária brasileira muda o cenário?

No contexto doméstico, a reforma tributária brasileira surge como uma tentativa de aproximar o país de modelos internacionais, especialmente pela adoção de um IVA dual. Mas Meireles pondera: a simplificação prometida depende menos do desenho teórico e mais da execução prática, sobretudo na definição de exceções, regimes específicos e na condução do período de transição.

Mentalidade, não apenas técnica

No fim, o maior diferencial entre operar no Brasil e nos EUA não está em planilhas ou alíquotas. Está na forma de pensar.

“A maior diferença entre Brasil e Estados Unidos não está apenas na forma de tributar, mas na forma de pensar a tributação. E é essa mudança de mentalidade que separa operações eficientes de estruturas que acumulam custo, risco e ineficiência ao longo do tempo”, conclui Igor Meireles.

Para empresas que já atuam ou planejam atuar no mercado americano, a recomendação é clara: antes de calcular o imposto, é preciso entender como a operação será lida pelo fisco local – e estruturá-la de forma integrada desde o primeiro dia.

Da Redação do Portal Dedução

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