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*Mauricio Frizzarin

São sete da noite e o dono da empresa ainda responde mensagens no celular, confere um relatório e resolve o problema que ninguém mais conseguiu resolver. A cena se repete em milhares de negócios pelo país e revela uma característica quase cultural do ambiente empresarial brasileiro: a ideia de que trabalhar excessivamente é sinônimo de competência, comprometimento e sucesso. Durante décadas, empresários aprenderam que crescer exige jornadas intermináveis, acúmulo de funções e envolvimento direto em praticamente todas as decisões da empresa. 

O empreendedor se acostumou a operar no limite, apagando incêndios, acompanhando processos e executando tarefas operacionais que consomem energia e tempo. O problema é que esse modelo é insustentável.

Em um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, acelerado e orientado por dados, as empresas não crescem mais apenas pelo esforço humano, mas pela capacidade de operar com eficiência, inteligência e produtividade. É justamente nesse ponto que a Inteligência Artificial (IA) começa a mudar a lógica da gestão empresarial.

Grande parte dos empresários ainda passa o dia absorvido por atividades repetitivas, previsíveis e com alto potencial de automatização O custo disso não é trivial. Em 2012, um estudo da McKinsey estimava que os profissionais do conhecimento gastam cerca de 20% do tempo apenas procurando informações internas ou colegas que pudessem ajudar em alguma tarefa e outros 28% gerenciando e-mails. Ou seja, quase metade da semana é consumida antes mesmo de começar o trabalho que realmente importa. O impacto disso é enorme e se reflete em perda de produtividade, desgaste mental, lentidão operacional, baixa capacidade estratégica e dificuldade de crescimento sustentável. Na prática, muitos empresários não conseguem liderar suas empresas, porque estão ocupados demais na operação.

O fato é que a produtividade, afinal, está relacionada à capacidade de gerar mais resultado com menos desperdício de tempo, de energia e trabalho manual. As empresas mais eficientes são aquelas que automatizam processos, integram informações e liberam pessoas para o que é mais estratégico e a Inteligência Artificial acelera justamente essa mudança.

Você possivelmente está se perguntando se a proposta é usar a IA para substituir as pessoas, especialmente no ambiente corporativo. Não é. Afirmo, que o maior impacto da tecnologia está ligado à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais, visto que será muito mais simples organizar informações, automatizar fluxos, responder clientes, monitorar processos, gerar relatórios, acompanhar indicadores e apoiar decisões com dados. Os chamados “agentes de IA” levam isso adiante. Afinal, eles funcionam como assistentes operacionais inteligentes, capazes de executar tarefas específicas de forma contínua e personalizada. Com isso, o empresário volta a pensar estrategicamente no crescimento do negócio, em novos produtos, no relacionamento com clientes e nas oportunidades de negócio.

Seria ingênuo, porém, tratar a IA como uma solução mágica. Há custos de implementação, curva de adaptação para as equipes e cuidados sérios com privacidade e proteção de dados, sobretudo sob a LGPD. É preciso ter consciência de que tecnologia mal aplicada não gera eficiência, gera mais ruído. O ganho real aparece quando a adoção é planejada, integrada aos processos e acompanhada de perto por quem decide. Assim, não se trata apenas de comprar a ferramenta, mas repensar como a empresa trabalha.

Feita essa ressalva, a tendência é clara. Os humanos terão atuação cada vez mais estratégica, enquanto a IA assume o lado operacional. A nova vantagem competitiva passa a ser o tempo, que se torna o recurso mais valioso nas empresas. Acredito, inclusive, que as companhias com destaque serão aquelas que conseguirem combinar criatividade humana, visão estratégica, tomada de decisão e inteligência emocional com automação, capacidade de análise de dados e uso de agentes inteligentes cuidando da execução.

Concluo essa reflexão destacando que o empresário brasileiro ainda trabalha demais, porque, durante muito tempo, não existiam alternativas acessíveis para automatizar grande parte da operação. Agora, no entanto, essas soluções existem. A Inteligência Artificial e os agentes inteligentes inauguram uma nova etapa da gestão empresarial em que o verdadeiro avanço da IA se reflete não só no campo técnico, mas no humano. Afinal, pela primeira vez em décadas, empresários começam a recuperar aquilo que a operação excessiva tirou deles: tempo para pensar, criar, liderar e crescer.

*Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON Software, empresa norte-americana especializada no desenvolvimento de softwares para gestão empresarial com inteligência artificial. Frizzarin cursou Tecnologia de Software e Marketing, OPM (Owner/President Management) na Harvard Business School, Executive Education em Inteligência Artificial na University of California, Berkeley e em Fintech em Harvard – www.qyon.com

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