A aprovação do fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, têm gerado preocupação entre o empresariado. As mudanças estão previstas para entrar em vigor em 16 de dezembro de 2026, uma semana antes do Natal, uma das datas mais importantes para o varejo. Diante desse cenário, entidades do setor temem impactos nas vendas caso as empresas não consigam se adaptar às novas regras a tempo.
Os empresários terão um período de transição de 60 dias para passar da escala 6×1 para a 5×2, com redução da jornada para 42 horas semanais. Em dezembro de 2027, a jornada será reduzida definitivamente para 40 horas semanais. Na avaliação de representantes empresariais, o prazo de adaptação é curto para implementar as duas mudanças no planejamento das equipes.
As mudanças farão com que muitas empresas precisem reorganizar as equipes e até mesmo contratar mais funcionários. De acordo com levantamento do Sindilojas-SP, apenas na capital paulista será necessário contratar 52 mil novos empregados para compensar a redução da carga horária individual.
“É uma capacidade distante da realidade do setor, que, em 2025, teve saldo positivo de apenas 9 mil empregos e, em 2026, já perdeu quase 6 mil postos de trabalho”, diz Jaime Vasconcellos, consultor de economia do Sindilojas-SP.
Para os pequenos negócios, o desafio é ainda maior. Com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), levantamento do Sindilojas-SP aponta que cerca de oito em cada dez estabelecimentos possuem até nove funcionários. Essas empresas precisarão contratar mais trabalhadores ou ajustar os horários de funcionamento.
A mudança ocorre em um período em que o varejo geralmente precisa ampliar sua capacidade de atendimento para responder à alta demanda. Isso exige organização antecipada dos estoques e planejamento das equipes. Para Vasconcellos, existe o risco de que parte dos estabelecimentos tenha dificuldade para manter os horários de atendimento e a mesma capacidade operacional durante o período de maior movimento.
“Como a nova escala e a primeira etapa da redução da jornada entram em vigor já no início da segunda quinzena de dezembro, haverá pouco tempo entre o início da mudança e o Natal. As empresas terão de conciliar a adaptação às novas regras com o período de maior movimento, quando as atenções do setor estarão voltadas à melhoria do desempenho das vendas, em um ano em que o faturamento bruto real do varejo paulista acumula queda superior a 6% e o da capital recuo de 9,2% entre janeiro e julho, na comparação com o mesmo período de 2025”, diz.
Outra preocupação do setor é a capacidade de geração de empregos no fim do ano. Projeção do próprio Sindilojas-SP indica a criação de 18,5 mil postos formais de trabalho no varejo paulista entre outubro e novembro de 2026. Enquanto em 2025, foram criadas 23,9 mil vagas no mesmo período.
“Caso se confirme, será o menor saldo para esses meses desde 2020. Essa projeção reflete um cenário de maior cautela dos estabelecimentos diante do desempenho das vendas e de um mercado de trabalho que também apresenta dificuldades na disponibilidade de mão de obra. É uma realidade oposta ao que a redução da jornada impõe”, diz Vasconcellos.
Preocupação também atinge bares e restaurantes
Para o setor de bares e restaurantes, o faturamento em dezembro costuma ser cerca de 20% superior ao de um mês comum, impulsionado pelas confraternizações de fim de ano. A receita adicional ajuda a custear o 13º salário dos funcionários e a manter os negócios em funcionamento em janeiro, período geralmente marcado pela queda no movimento.
Segundo Paulo Solmucci, presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a mudança ocorre em um período no qual o setor já enfrenta dificuldades para contratar profissionais. No fim de 2025, 88% dos empresários relataram problemas de contratação, conforme pesquisa da entidade.
Fonte: Rebeca Ribeiro – Jornal do Comércio
